Friday, January 17, 2003

- 7 - .não sei, não sei. Não sei que dizer, as minhas mãos estão sujas e a luta é cada vez maior... ou menor. Cada vez mais facilmente me entrego ao inimigo, ao prazer, ao riso e ao choro. Mais uma vez apunhalei-te pelas costas, troquei o ouro por... nada, e tu não o soubeste.
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- 5 - .palavras de uma guerra. Dia após dia, continuo a lutar contra ti. Até agora tenho acabado extendido no chão, com mais uma cicatriz, com mais uma medalha de vergonha. Temo não ter força. Concluo não ter força. Os meus dois braços não têm conseguido vencer nada. Mas lua após lua continuo a acreditar que sim, que um dia conseguirei. Continuo a acreditar na mentira de que dois braços são suficientes para aniquilar um exército. Tremo de frio, de angústia, de solidão, de me alimentar da minha própria carne. a noite chegou mais uma vez, e com ela a vergonha de outra derrota. Terei ainda forças para acreditar que consigo, ou, pelo contrário, terei a coragem de perceber que estou sozinho e que sozinho não consigo.
Quando levantarás a bandeira branca da rendição - não ao inimigo, mas a ti mesmo -, quando tocarás a trompa de quem pede ajuda. Quando? Será preciso seres derrubado e pisado pelo teu próprio cavalo. Queres tu alimentar as larvas com a tua carne. Quantas vezes passaste tu por esta bifurcação. Percebe que o caminho da direita não serve. Novamente não sabes, e não sabendo, qualquer um. Não admites, mas estás por tudo. Desistes e pensas que é a tua vitória, que, por estares sozinho, ganhaste. Aceita o banquete que te oferecem neste jantar a dois, não vás para uma mesa sozinho: não serás melhor servido.
Que história queres escrever, antes, que final queres dar à história. Talvez seja o último capítulo que tens. Qual o nome que lhe vais dar: " O Herói levanta a mão" ou "O Herói levanta-se".
- 4 - .a complexidade do ser humano. Seres humanos. Tentamos controlar tudo. Dominar animais selvagens, dominar os domésticos, a nosso belo prazer. Pois algumas coisas são indomáveis. Em cada gatinho no colo da criança, está a garra do leopardo que mata. Em cada cachorro existe a canção solitária do lobo. Nós homens, tentamos compreender tudo o que se passa à nossa volta. Será devido ao facto de não nos compreender-mos a nós mesmos, individualmente. Por vezes libertamo-nos do peso de nos compreender-mos, do fardo de nos tentarmos controlar, e fazemos aquilo que não entendemos. Seguimos a maré do nosso próprio desespero e refugiamo-nos na caverna da auto-piedade. Tentamos compreender os que estão ao nosso lado e fazemos exactamente aquilo que os magoa. Tentamos ser felizes e acabo, sozinho, no quarto, a chorar. E este quarto não é necessariamente fisico, mas será a própria vida, nem as lágrimas as liquidas, mas as esirituais.
Talvez esteja apenas a tentar magoar-me o suficiente para conseguir pedir ajuda.
- 3 - E nas crónicas, não será recordado como o que tombou, mas com a esperança de que, num dia de nevoeiro, como que por magia, apareça, montando o vitorioso cavalo da honra. Mas talvez esse rei caminhe pelas ruas da cidade, disfarçado de velho, temendo que seja recordado pela queda. Não sabendo que caminho tomar, opta pelo descanso num banco de café. Acompanhado por uma bica fria, espera que alguém reconheça aquele que foi o primeiro a desembainhar a espada. A tua esperanção é vã, ó velho rei. Hoje já ninguém acredita em reis, em heróis ou em histórias de amor. Apenas se riem - criticando - os que caiem do cavalo da vida. Os que querendo ser ser heróis, tornam-se bobos, querendo ser reis, tornam-se escravos.
- 2 - Não tendo um livro que ler, tenho um que escrever. O esforço é maior mas também o resultado e a recompensa. No lugar de ler o que os outros viveram, ficticiamente ou nao, tento escrever aquilo que vivo. Aquilo que vivo e que ninguém lê, ou vê.Ponho no papel a minha vida interior, não a exterior ou a palpável, pois essa é passageira, não é - talvez - digna de ser imortalizada (Haverá algo imortalizavél?) de ser lida, nem tão pouco contada. A outra podia guardá-la só para mim, mas o mais provável seria esquecê-la; então divido-a com o papel. Tento que através do instrumento de escrita o meu fardo seja aliviado. E quem sabe, um dia, queimarei (o papel) e aí a minha carga desaparecerá definitivamente. Esse será o momento em que, livrando-me do peso, a minha história poderá ser contada.

Quem diria que as palavras poderiam ter tal peso, que somente pelo seu enunciado um povo pudesse ser mudado. Que através de alguém que não sabia falar direito, o menor de todos, uma nação caminhasse num só sentido. Pois esse homem, agora velho, apoiado numa bengala tosca, não chegou a ver aquilo para o qual tanto lutou. Pois é, nem sempre os reis chegam a sentir a terra pela qual lutaram, aquela que num acto heróico, os fez sair dos seus tronos de conforto e serem os primeiros a tombarem do cavalo.
- 1 - Uma súbita necessidade que me faz pegar no bloco e na caneta e começar a escrever. Aliás, uma necessidade que se apresentava à que tempos, a ponto de me fazer andar com o papel e a caneta atrás. Poderia escrever como no princípio, "pelo prazer da tinta a correr", pelo gozo de ver as palavras formarem-se diante de mim e como uma criança que brinca na areia, contruir com cara séria e pisar rindo. Porêm a necessidade agora não é a mesma - ou talvez seja, mas apenas disfarçada -, pois agora procuro dar significado às palavras, em cada parágrafo tento contar um história; e por esse motivo a minha demora.
Não encontro nenhuma história e as que sei não as quero contar.

Sempre foi mais quente o sangue derramado no campo de batalha, do que o marfim de um sorriso; e é mais íntimo o suor de um amigo do que as palavras de um conselheiro. Então agora não quero ouvir as palavras que tens para me dizer, nem ver os teus lindos dentes. Prefiro sentir o calor do teu suor e que toques as minhas feridas.


Quando entramos na casa de alguém não devemos querer ver os quartos que estão fechados à chave, nem que ela nos convide para passarmos lá a noite. Mesmo que aconteça passarmos a morar com ela, isso não nos dá o direito - ou não devemos ter a presunção - de conhecermos esses quartos. A pessoa habitou desde sempre naquela casa, logo iria ser muito doloroso abrir aquela porta.


Quando estamos de pé o tempo passa mais devagar, a não ser que estejamos a andar. Pois quando estamos a andar, ultrapassamos mais depressa a barreira do espaço do que a do tempo.

Thursday, January 16, 2003

- 0 - . não sigas maus conselhos. . é loucura pensar loucura. não tenhas medo de chorar, fa(-)lo naturalmente, como o riso de um bebé. não fiques preso às muralhas da tua vida. não edifiques muralhas que não consegues suportar. não penses que as muralhas tapam a tua nudez ou te protegem do frio. não penses loucura. não penses. não faças tudo o que queres nem caias no erro de fazer algumas coisas que não queres, mas ainda assim faz outras contra a tua vontade. não te agarres ao teu comodismo, pode incomodar outros, ou a ti mesmo um dia mais tarde. não leias tudo o que te aconselham. não sigas todos os conselhos que lês. não aconselhes outros a fazer coisas que não saibas que irão resultar. não tenhas medo de arriscar, nem que seja com a vida dos outros. não acredites em tudo o que lês. não leias isto até ao fim, arrisca tentar lê-lo até ao principio. não aceites todos os sins que recebes. não digas sim a tudo. não comeces muitas frases seguidas por um não, pode-se tornar um pouco chato. não penses que por o fazeres, não terás todo o texto lido. não gastes muitas folhas quando não é necessário. não faças a letra muito grande. não cries um alfabeto próprio, de letras indecifráveis, poderás, qualquer dia, não perceber o que escreveste. não tentes perceber tudo o que lês. não tentes perceber tudo o que escreveste. não deites algo que escreveste fora, mesmo que não o percebas. não escrevas a vermelho. não penses que todas as frases podem começas pela mesma palavra. guarda o máximo de textos que escreveste, mesmo que não concordes com eles, talvez concordes quando fores velho. guarda os conselhos que as outras pessoas te dão, mesmo que não os utilizes, poderão ser úteis a outros. guarda os conselhos do teu pai, mesmo que não os sigas, poderás dize-lo um dia aos teus filhos e ai compreenderás um pouco mais o teu pai. guarda os elogios da tua mãe, lembra-te deles quando te criticarem. deixa que as pessoas que gostas se lembrem de acontecimentos importantes, ou se esqueçam. não fiques demasiado magoado quando alguém de esquece de ti. não fiques demasiado magoado quando te esqueces de alguém. não penses muito racionalmente. escreve todos os números por extenso, não te esqueças que não fazem parte do alfabeto. não uses os números, são chatos. não penses que um texto está terminado até reveres todas as hipóteses, até se te esgotarem todas as palavras. não uses todas as palavras que conheces no mesmo texto. não percas muito tempo com textos que não gostas, perde tempo com coisas que te dão prazer, poucas coisas são perca de tempo. fazer uma viagem grande sem levar um livro, escrito ou em branco, é uma perca de tempo. não penses que só ler ou escrever é uma boa ocupação de tempo. não fazer nada é, por vezes, a melhor forma de ocupar o tempo. não acredites em tudo o que te contam. não contes tudo aquilo em que acreditas. não reveles todos os teus sonhos, guarda um só para ti, mas não te distrais esquecendo-o, se tens receio que isso aconteça, escreve-o. não guardes o que escreveste bem demais, podes esquecer-te de onde o guardas-te.